Como preparar líderes críticos para o futuro

Bússola dourada sobre um mapa com caminhos em direção ao horizonte, título Como preparar líderes críticos para o futuro e logotipo oficial do IAPerforma.
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Conhecimento é mapa. Aprendizagem é bússola. Propósito é norte. Como formar líderes capazes de questionar respostas e usar a IA sem terceirizar o julgamento.

Vivemos um paradoxo interessante.

Nunca tivemos tantas respostas disponíveis e, ao mesmo tempo, nunca foi tão importante saber questioná-las.

A inteligência artificial ampliou de forma extraordinária nossa capacidade de acessar informações, estruturar análises, produzir alternativas e encontrar caminhos.

Mas isso cria uma pergunta essencial:

como preparar líderes críticos para um futuro em que as respostas serão cada vez mais rápidas, abundantes e convincentes?

Acredito que a resposta passa por uma mudança na própria formação da liderança.

Não basta desenvolver competências técnicas, ferramentas e repertório.

Precisamos formar líderes capazes de questionar, pensar sobre o próprio pensamento, aprender continuamente, desaprender quando necessário, rever convicções e ouvir perspectivas diferentes das suas.

Quando as respostas ficam fáceis, as perguntas ficam mais valiosas

Durante muito tempo, conhecimento foi associado à capacidade de encontrar respostas.

Isso continua importante.

Mas hoje uma inteligência artificial pode responder, em segundos, perguntas que antes exigiriam horas de pesquisa.

Por isso, talvez uma das competências mais valiosas do líder não seja simplesmente encontrar respostas.

Será saber fazer as perguntas certas e questionar as respostas antes de aceitá-las.

Herbert Simon, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1978, desenvolveu o conceito de racionalidade limitada.

Nunca decidimos com todas as informações disponíveis.

Tomamos decisões dentro de limites de tempo, conhecimento, contexto e capacidade cognitiva.

A inteligência artificial não elimina esse problema.

Quando uma IA nos apresenta uma resposta muito bem escrita e convincente, o líder ainda precisa perguntar:

Quais pressupostos sustentam essa resposta?

Que informação pode estar faltando?

O que estamos assumindo como verdadeiro sem discutir?

Que perspectiva não está sendo considerada?

Daniel Kahneman, em Rápido e Devagar, também nos ajuda a compreender esse desafio ao diferenciar o pensamento rápido, intuitivo e automático do pensamento mais lento, deliberado e analítico.

Existe aí outro paradoxo:

quanto mais rápida se torna a tecnologia, mais importante pode se tornar nossa capacidade de desacelerar o pensamento.

Antes de uma decisão importante, talvez o líder deva perguntar:

Esta situação exige velocidade ou profundidade?

A IA pode mostrar caminhos. Mas alguém precisa escolher o destino

Gosto de uma analogia simples.

A inteligência artificial pode funcionar como um excelente GPS.

Ela pode analisar caminhos, identificar riscos, calcular alternativas e sugerir rotas.

Mas o GPS não decide para onde vale a pena ir.

Na liderança acontece algo semelhante.

A IA pode ajudar a analisar cenários, produzir opções e apontar riscos.

Mas decidir o destino, compreender por que ele importa, assumir responsabilidade pela escolha e mobilizar pessoas continua sendo função da liderança.

Isso será ainda mais importante porque o líder do futuro provavelmente não liderará apenas pessoas.

Ele terá de aprender a liderar pessoas, agentes de inteligência artificial e sistemas automatizados trabalhando conjuntamente.

Esse cenário exigirá novas competências tecnológicas.

Mas também aumentará a importância de capacidades profundamente humanas:

confiança, propósito, comunicação, empatia, julgamento e mobilização.

Por isso acredito em uma ideia aparentemente contraditória:

quanto mais tecnológica se torna a liderança, mais humana ela também precisa se tornar.

Pensar criticamente exige pensar sobre o próprio pensamento

Podemos ensinar inúmeras ferramentas para um líder e, ainda assim, formar alguém extremamente competente para defender uma decisão errada.

O problema nem sempre está na falta de conhecimento.

Muitas vezes está na forma como pensamos sobre aquilo que acreditamos saber.

Por isso, uma competência importante para a liderança crítica é a metacognição.

Em termos simples:

pensar sobre o próprio pensamento.

É como colocar um espelho diante do raciocínio.

O líder deveria se acostumar a perguntar:

Por que acredito que isso está correto?

O que aqui é fato e o que é interpretação?

Que evidência poderia demonstrar que estou errado?

Existe uma pergunta especialmente poderosa:

O que precisaria acontecer para eu mudar de opinião?

Porque, se a resposta for “nada”, talvez já não estejamos analisando uma hipótese.

Estamos simplesmente defendendo uma crença.

A própria inteligência artificial pode ser utilizada nesse processo.

Em vez de usá-la apenas para confirmar aquilo que já pensamos, podemos pedir:

Construa o melhor argumento contra a minha decisão.

Que riscos estou ignorando?

Que premissas estou assumindo sem perceber?

Que perspectiva está faltando?

Nesse caso, a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de resposta e passa a funcionar também como contraponto intelectual.

O pensamento crítico continua sendo humano.

Mas a tecnologia pode ampliar nossa capacidade de testar hipóteses e perceber pontos cegos.

Saber, aprender, desaprender e rever convicções

Quando penso na preparação do líder para o futuro, gosto de organizar essa reflexão em quatro movimentos.

1. Saber

A pergunta é:

O que eu preciso saber?

E, principalmente:

o que é relevante hoje e o que poderá ser relevante amanhã?

Vivemos em uma época de abundância de informação.

Estamos, por exemplo, em período de Bienal do Livro.

Quantos livros são lançados?

É impossível acompanhar tudo.

Por isso, aprender também exige selecionar.

Eu mesmo observo recomendações de pessoas que considero referências e tento incorporar aprendizagem à rotina.

Como passo algumas horas por semana no carro, transformei parte desse tempo em oportunidade de aprendizagem ouvindo livros.

O desafio não é consumir tudo.

É identificar aquilo que realmente merece nossa atenção.

2. Aprender

A segunda pergunta é:

Como posso melhorar minha capacidade de aprender?

E existe uma pergunta ainda mais pessoal:

Como eu aprendo melhor?

Algumas pessoas aprendem melhor lendo.

Outras ouvindo.

Outras escrevendo, ensinando ou experimentando.

Aprender também exige autoconhecimento.

E aqui existe uma diferença importante:

o conhecimento que possuo hoje me ajuda a enfrentar os problemas que conheço hoje. A capacidade de aprender determina minha capacidade de enfrentar problemas que ainda nem existem.

Gosto de pensar nisso como uma relação entre mapa e bússola.

O conhecimento é o mapa.

Ele representa territórios conhecidos, experiências acumuladas e caminhos já percorridos.

Mas, quando o território muda, precisamos de uma bússola.

Essa bússola é nossa capacidade de aprender.

3. Desaprender

Talvez essa seja a parte mais desconfortável.

A pergunta é:

O que preciso desaprender para aprender algo novo?

Desaprender não significa apagar conhecimento.

Significa reconhecer que algo que funcionou muito bem no passado pode não ser a melhor resposta para uma nova realidade.

Existe uma frase perigosa nas organizações:

“Sempre fizemos assim e sempre funcionou.”

Experiência é patrimônio quando produz reflexão.

Mas pode se transformar em prisão quando vira certeza permanente.

Eu gosto de preparar minhas aulas e produzir as artes dos meus próprios slides.

Durante muito tempo trabalhei de uma maneira mais tradicional.

Para aprender a usar o Canva de forma mais intensa, precisei desaprender algumas formas antigas de trabalhar.

Não porque estivessem necessariamente erradas.

Mas porque existia uma possibilidade diferente.

4. Rever convicções

Existe ainda uma camada mais profunda.

Minha forma de pensar e agir está enraizada em quais convicções?

Até algum tempo atrás, eu enxergava o ChatGPT principalmente como uma ferramenta de respostas.

Eu perguntava.

Ele respondia.

Recentemente, comecei a utilizar novas gerações dessas tecnologias para executar tarefas e automatizar processos, inclusive relacionados à atualização do site da Revista Líderes.

Isso exigiu que eu revisasse uma convicção sobre o próprio papel da inteligência artificial.

Ela deixou de ser, para mim, apenas uma ferramenta que responde.

Passou também a executar.

Mas aqui existe um cuidado fundamental.

Nem toda convicção precisa ser revista.

Existem princípios que podem e devem permanecer firmes.

Ética.

Integridade.

Respeito às pessoas.

Responsabilidade.

Propósito.

O desafio do líder é distinguir princípios de modelos mentais.

Métodos mudam.

Ferramentas mudam.

Tecnologias mudam.

Estratégias mudam.

Algumas certezas precisam mudar.

Princípios não precisam mudar a cada nova tendência.

Talvez esse seja um dos grandes desafios da liderança contemporânea:

ter princípios firmes e modelos mentais flexíveis.

O líder crítico precisa conviver com a discordância

Existe uma armadilha recorrente na liderança.

Quanto mais experiente o líder se torna, maior pode ser a tentação de cercar-se de pessoas que pensam como ele.

É confortável.

É rápido.

As reuniões fluem.

Mas concordância não significa necessariamente inteligência coletiva.

Às vezes significa apenas ausência de contraditório.

Em cenários complexos, isso é perigoso.

Tenho percebido isso também nas entrevistas que realizo para a Revista Líderes.

Executivos muito bem-sucedidos podem enxergar liderança de maneiras completamente diferentes.

Um enfatiza pessoas.

Outro estratégia.

Outro cultura.

Outro inovação.

Outro propósito.

Isso nos lembra de algo importante:

a realidade organizacional é grande demais para caber em uma única perspectiva.

Gosto de pensar na diversidade como janelas.

Se uma sala possui apenas uma janela, enxergamos muito bem uma parte da paisagem.

Quando acrescentamos outras janelas, ampliamos os ângulos pelos quais conseguimos observar a realidade.

Mas diversidade, sozinha, não garante inteligência coletiva.

Podemos reunir dez pessoas diferentes em uma sala.

Se nove tiverem medo de discordar do líder, continuaremos decidindo praticamente com uma única cabeça.

É aqui que o trabalho de Amy Edmondson sobre segurança psicológica se torna especialmente relevante.

Segurança psicológica não significa criar um ambiente em que todos concordam.

Significa criar um ambiente em que as pessoas possam fazer perguntas, apontar problemas, admitir erros e discordar sem medo de humilhação ou retaliação.

Existe uma pergunta simples que o líder poderia fazer com mais frequência:

“O que você está enxergando que talvez eu não esteja enxergando?”

E, em algumas decisões importantes, uma prática simples pode fazer diferença:

o líder deveria falar por último.

Escutar primeiro.

Quanto mais respostas você dá, mais precisa de alguém que lhe faça perguntas

Existe outro paradoxo da liderança.

Quanto mais uma pessoa avança profissionalmente, mais pessoas começam a procurá-la em busca de respostas.

Com isso, surge uma tentação perigosa:

acreditar que, porque começamos a ensinar, orientar e decidir, já não precisamos aprender como antes.

Eu penso justamente o contrário.

Quanto mais pessoas procuram o líder em busca de respostas, mais importante é que esse líder tenha alguém que lhe faça boas perguntas.

É por isso que considero mentores importantes.

Um bom mentor não pensa pelo líder.

Também não entrega simplesmente respostas prontas.

Ele ajuda a pensar melhor.

Mostra pontos cegos.

Cria contrapontos.

E, algumas vezes, nos ajuda a perceber que estamos tentando resolver o problema errado.

Humanos e IA: não é uma disputa

Durante muito tempo tratamos competências humanas e tecnologia como mundos separados.

Isso tende a desaparecer.

Teremos cada vez mais combinações como:

comunicação + IA

pensamento crítico + IA

criatividade + IA

colaboração + IA

liderança + IA

A tecnologia pode ampliar nossas capacidades.

Mas não deveria substituir julgamento, responsabilidade ou humanidade.

A IA pode estruturar uma mensagem.

Mas alguém precisa compreender a emoção de quem vai recebê-la.

A IA pode produzir cenários.

Mas alguém precisa assumir responsabilidade pela decisão.

A IA pode multiplicar ideias.

Mas alguém precisa decidir quais possuem significado.

Por isso não acredito que o futuro seja uma disputa entre humanos e máquinas.

Acredito que o diferencial estará na combinação inteligente entre capacidade humana e capacidade tecnológica.

O líder do futuro não precisa saber tudo

Talvez essa seja uma das principais conclusões.

O líder do futuro não será aquele que possui todas as respostas.

Será aquele que consegue:

fazer perguntas melhores;

pensar sobre o próprio pensamento;

testar suas certezas;

aprender continuamente;

desaprender quando necessário;

rever modelos mentais;

escutar perspectivas diferentes;

usar tecnologia sem terceirizar julgamento;

e permanecer firme naquilo que realmente importa.

Conhecimento continua sendo fundamental.

Mas conhecimento sozinho não basta.

Por isso gosto de uma síntese:

Conhecimento é mapa. Aprendizagem é bússola. Propósito é norte.

A tecnologia pode ampliar nossa inteligência e mostrar caminhos.

Mas escolher o destino, assumir responsabilidade pela decisão e mobilizar pessoas continua sendo tarefa da liderança.

E talvez seja por isso que, diante de um futuro cada vez mais tecnológico, a melhor preparação para o líder não seja apenas tecnológica.

Será também intelectual, emocional e humana.

O líder crítico do futuro precisará ter princípios firmes, aprendizagem contínua e modelos mentais flexíveis.

E deixo uma pergunta para reflexão:

na sua liderança hoje, o que você precisa aprender, o que precisa desaprender e qual certeza talvez mereça ser novamente questionada?

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